São Paulo - A dois dias das eleições, a escolha do candidato a vereador ainda é um dilema para a maioria dos eleitores. As pesquisas mais recentes dão conta que 60% não têm ainda um nome definido para levar às urnas. O alto percentual de indecisos para o legislativo não é uma novidade e, nos últimos anos, tem provocado surpresas entre os eleitos – principalmente, para os que ficam de fora.
A indefinição pode refletir diretamente na renovação das cadeiras, que tem uma média histórica de 50% de mudanças.
São Paulo, o maior colégio eleitoral do País, tem também o maior número de concorrentes na disputa por uma das 55 vagas na Câmara Municipal. Hoje, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP), são 1076 candidatos a vereador, filiados em 27 partidos, sendo estes divididos em seis coligações e doze chapas puras, para as eleições proporcionais.
A conseqüência prática de um universo tão grande de escolha para o eleitor é que sobram opções, mas falta a decisão – que deve ser única. Para o diretor executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, o motivo do alto percentual de indecisos não é decorrente da quantidade de candidatos, mas da ausência de informação sobre eles.
"No período eleitoral, os eleitores recebem apenas a sobrecarga de propaganda, mas faltam as informações necessárias sobre o candidato, que são essenciais para formar a convicção do voto", diz. Além do apelo exclusivamente publicitário assumido pelo candidato diante do eleitor, Abramo critica o papel da imprensa no processo eleitoral, que direciona toda a cobertura para a disputa do Executivo, relegando ao segundo plano as eleições proporcionais.
Ele afirma que o uso maciço da propaganda pelo vereador deveria ser enfrentado pelo contraditório, uma das atribuições da imprensa. "Alguns jornais até que tentaram, com seções específicas para os vereadores na internet, mas o conteúdo acabou se transformando apenas em uma listagem", completa.
Abramo diz ainda que a falta de informação não é só sobre o candidato, mas também a respeito do desempenho daqueles vereadores que já estão em mandato. Por isso, o eleitor se vê muitas vezes incapaz de julgar se o trabalho realizado na Câmara merece continuidade.
Uma tentativa de apresentar uma análise sobre o desempenho dos atuais vereadores é o Projeto Excelências, da Transparência Brasil, em que se pode verificar a atividade individual dos parlamentares das capitais e de algumas das principais cidades do País.
Os resultados podem ser significativos para influenciar o voto do eleitor. Em São Paulo, por exemplo, o estudo conclui que a atual Câmara teve 93% de atividade irrelevante, ou seja, apenas 7% de trabalhos importantes para a cidade. "Esta é a importância da informação, porque o voto tem de ser um ato racionalmente decidido", diz Abramo.
Para o dirigente do Instituto Ágora em Defesa do Eleitor, Gilberto de Palma, a indecisão do eleitor também é conseqüência da falta de entendimento da população sobre o que faz o vereador. "É mais difícil compreender a importância e a função que desempenha o parlamentar. E as pessoas ficam sem saber para que serve o vereador", diz.
Palma afirma que essa lacuna tem ainda uma razão histórica, ligada ao passado colonial brasileiro, que distancia a atividade política da sociedade civil. "Esse processo de aproximação está em consolidação, assim como o entendimento da divisão de poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)".
O dirigente do Ágora sugere um roteiro para ajudar o eleitor a se definir: pesquisar o histórico pessoal do candidato; verificar se tem ficha limpa, seja de processos criminais ou administrativos; confirmar se as promessas feitas são próprias da função que pretende exercer; pesquisar se mudou de partido muitas vezes, para verificar o grau de coerência do candidato; analisar capacidade e o espírito técnico político-legislativo, em vez da simples popularidade, beleza ou sensualidade.
Palma chama a atenção para a onda de "famosos" que buscam a carreira política. Ele afirma que o candidato conhecido por atividades em outras áreas pode popular, mas não necessariamente a garantia de um bom político.
"Tem de haver a avaliação política acima de tudo. Por exemplo, para uma operação, prefere-se um bom médico. Para pilotar um avião, um bom comandante. Nesses casos, ninguém quer substituições por artistas e jogadores de futebol. O mesmo critério deveria acontecer com a política", diz. "No fim, ao eleitor não adianta falar mal da classe política", completa.
Fernando Vieira

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